Como e Quando Surgiu?

Economia Comportamental surge com o intuito de unir as descobertas da psicologia com a economia para criar modelos que descrevem de maneira mais realista as escolhas dos indivíduos. Por muitos anos os avanços na psicologia não foram usados como contribuição na economia. Havia uma separação das duas disciplinas principalmente em razão das diferentes metodologias utilizadas – a economia foi formalizada matematicamente e a psicologia se embasou na tradição experimental. Ao focar em teorias que enfatizavam as previsões, a economia escolheu por deixar de lado a busca por pressupostos mais realistas.

Já na década de 1950, houve uma tentativa de mudança por parte de alguns autores. Herbert Simon, por exemplo, defendeu o uso de modelos que utilizavam mecanismos cognitivos para analisar o comportamento dos indivíduos. Simon cunhou o termo “racionalidade limitada” (bounded rationality) para sumarizar a proposta de que em função de limitações cognitivas, nossa mente não consegue solucionar problemas dentro dos padrões exigidos por um comportamento economicamente racional. Sua contribuição foi apenas um vislumbre do que estava por vir.

A grande ruptura ocorre na década de 1970 quando os psicólogos cognitivos começam a estudar o processo de decisão e comportamento dos agentes e adentrar no campo da economia. Estes modelam a racionalidade limitada de uma maneira familiar para os economistas. Neste momento, alguns economistas passam a aceitar que as anomalias verificadas por diversos autores não podem ser ignoradas e se apoiam na psicologia para buscar respostas.

Ao final da década de 70 temos dois trabalhos importantes que são considerados grandes marcos para a Economia Comportamental. O primeiro, a chamada Teoria da Perspectiva (Prospect Theory), dos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky, busca descrever de maneira mais realista o processo de decisão dos agentes corrigindo e explicando anomalias detectadas na teoria econômica tradicional. O segundo, o trabalho do economista Richard Thaler (Toward a Positive Theory of Consumer Choice), publicado já em 1980, descreve uma série de anomalias não explicadas pelo mainstream da economia abrindo, assim, um novo campo de estudo.

As pesquisas deste novo campo identificam também problemas de predição nos modelos da economia tradicional, o que tem contribuído para um crescimento da Economia Comportamental.

No tocante ao reconhecimento pelo mundo acadêmico, em três oportunidades, 1978, 2002 e 2013, cientistas associados à Economia Comportamental receberam o Prêmio Nobel em Economia.

Herbert Simon, Ph.D. em Ciências Políticas (e não em Economia), recebeu o Prêmio Nobel em 1978, pelo seu trabalho sobre racionalidade limitada,. A exploração das consequências da racionalidade limitada constituiu a base das pesquisas de Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, a lamentar, a ausência de Amos Tversky entre os laureados de 2002. Inseparável parceiro intelectual de Kahneman, Tversky faleceu prematuramente, em 1996, aos 59 anos de idade.

É interessante observar que, assim como Simon, Kahneman não tem um Ph.D. em Economia. Kahneman recebeu seu Ph.D. em Psicologia, pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

Finalmente, em 2013, o Prêmio foi concedido a três economistas. Um deles, Robert Shiller, foi descrito pelo comitê do Nobel como o fundador do campo de Finanças Comportamentais e um dos inovadores na incorporação da psicologia à economia. Shiller recebeu o Nobel por suas análises empíricas sobre asset prices e é amplamente reconhecido como um dos mais influentes economistas do mundo na atualidade. Shiller tem um Ph.D. em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Os prêmios conferidos a Herbert Simon, Daniel Kahneman e Robert Shiller demonstram o admirável vigor dos conceitos e propostas que, ao longo das últimas décadas, vem definindo e consolidando o campo da Economia Comportamental.

  por Flávia Ávila e Marcos Avila

 

Referências:

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CAMERER, C.; LOEWENSTEIN, G.; PRELEC, D. (2004). Neuroeconomics: Why Economics Needs Brains. Journal of Economics, v.106 (3), p. 555-579.
CAMERER, C.;LOEWENSTEIN, G. (2002) Behavioral Economics: Past, Present, Future. Caltech.
CAMERER, C. (2005). Behavioral Economics. World Congress of The Econometric Society.
KAHNEMAN, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. Farrar, Srauss and Groux / New York, 2011 (traduzido para o português com o título Rápido e Devagar – Duas formas de pensar. Ed.Objetiva).
KAHNEMAN, D.; TVERSKY, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 47(2), 263-291. 
MELLERS, B.; TELOCK, P. (2002). The Great Rationality Debate. Psychological Science, v. 13(1), p. 94-99.
SHILLER, R. J. (2005). Behavioral Economics and Institutional Innovation. Southern Economic Journal, 72 (2), 269-283 [CFP 1150].
SIMON, H. (1986). Alternative Visions of Rationality. In.: Judgment and Decision Making – In Interdisciplinary Reader (pp. 97-113). Ed. by Hal Arkes and Kenneth R. Hammond, Cambridge University Press. Originally appeared in Simon, H. A. – Reason in Human Affairs (pp. 7-35).
THALER, R. (1980). Toward a Positive Theory of Consumer Choice. Journal of Economic Behavior and Organization, 1, 39-60.
THALER, R.; SUNSTEIN, C. (2008). Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness. Yale University Press, (traduzido para o português com o título Nudge: O Empurrão para a escolha certa. Campus)


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