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Homo sapiens ou homo narrans, qual qualificativo se aplica melhor à nossa espécie? O primeiro é mais lisonjeiro, diz Robert Shiller (2017, p. 9), mas o segundo parece mais correto.

Em sua recente mensagem presidencial à American Economic Association, Shiller, prêmio Nobel de economia em 2013 e, sem dúvida, um dos grandes nomes das finanças comportamentais, discute a importância das narrativas nos ciclos econômicos. Segundo ele, os economistas devem admitir que a severidade das crises econômicas pode resultar da prevalência e visibilidade das histórias contadas sobre elas, que se propagam como doenças contagiosas.

No domínio econômico e fora dele, o cérebro humano recorre a narrativas, que podem ou não ser “verdadeiras”, para justificar o comportamento do agente. Humanos são eternos contadores de histórias, e a isso se dedicam nas mais diversas circunstâncias, como têm demonstrado à larga antropólogos e estudiosos do comportamento humano em geral. Os neurocientistas descrevem como as narrativas aparecem nos sonhos, nos quais a mente se joga numa espécie de confabulação espontânea desencadeada pelo sistema límbico anterior, responsável pelas emoções, e suas conexões subcorticais. Por outro lado, doenças mentais como a esquizofrenia associam-se a distúrbios narrativos, que podem levar o indivíduo a ouvir vozes imaginárias. A mesma forma perturbada de narrativa é observada no espectro do autismo.

Fiel à filosofia da economia comportamental, Shiller recorre a várias disciplinas em sua argumentação, não só à neurociência, à psicologia e à antropologia, como também à análise literária.  Seu objetivo é testar o tipo complexo de associação que existe entre as flutuações econômicas e as narrativas que se propagam sobre as mesmas, no mundo da “pós-verdade”.

Os economistas comportamentais vêm há tempos destacando o descompasso entre os fatos e a percepção que os humanos têm deles. Pesquisas experimentais se debruçam sobre diferentes vieses cognitivos e as heurísticas correspondentes, para evidenciar a dissonância entre aquilo que é, de um lado, e aquilo que é percebido ou sentido, de outro. O avião que caiu na véspera aumenta significativamente o medo que o viajante tem de seu avião de hoje, embora sua chance de ser atropelado na chegada ao aeroporto seja maior.  O sujeito de um experimento a quem se pede para registrar o número do CPF no início da sessão usa esse número como âncora para estimar a quantidade de habitantes de Paris. Estamos mais propensos a assumir riscos em situações que envolvem perdas do que naquelas que envolvem ganhos equivalentes. E assim por diante.

A mensagem de Shiller acrescenta a esse quadro um terceiro elemento: o que se conta a respeito do que ocorre, ou, mais precisamente, o que os humanos relatam uns aos outros a respeito daquilo que perceberam. Como defende o autor, as narrativas podem adquirir um caráter contagioso e espalhar-se pelo mundo, porque conectam atividades a necessidades e valores profundos do ser humano. Na grande depressão dos anos 1930, por exemplo, é inegável que a persistência da crise reflete o impacto de um conjunto grande de fatores sobre a atividade econômica; mas tem também a ver com a repercussão desses fatores na forma de narrativas epidêmicas. Por ter tido essa consciência é que Franklyn Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, pronunciou sua famosa frase: “A única coisa a temer é o próprio temor (The only thing to fear is fear itself)”.

Em seu empenho de construir um modelo para representar o poder de contágio das narrativas, Shiller faz referência à teoria matemática de Kermack-McKendrick sobre a dinâmica das doenças infecciosas. Nesse modelo, a população é dividida em três categorias: suscetíveis, infectados e recuperados. Para um pequeno número inicial de infectados, a quantidade de novos infectados e o contágio podem ser representados por uma curva na forma de sino, que começa aumentando e diminui em seguida.  O modelo tem muitas tecnicalidades, e vem sendo aprimorado à medida que as pesquisas avançam, abrindo-se espaço para recuperações parciais e mesmo para mutações. Mas o importante a destacar aqui é o esforço de Shiller na direção de formalizar o vínculo que pretende caracterizar entre flutuações econômicas e suas narrativas.

Vale também notar que Shiller adota um estilo cauteloso, pela própria dificuldade de ver com clareza a direção de causalidade. De uma maneira geral, seu objetivo é explorar a possibilidade de uma causalidade reversa, que vai das narrativas para os resultados. Na reconstituição histórica de diferentes episódios de crise, o autor pretende mensurar até que ponto e em que condições as narrativas passam a figurar como choques exógenos sobre a economia agregada.

A respeito da crise de 2007-9, por exemplo, Shiller chama a atenção do leitor para o próprio termo “Grande Recessão”. A adoção desse termo denotaria o caráter contagioso da narrativa sobre o colapso do mercado acionário, que, é claro, nunca pode ser atribuído à atuação de um único indivíduo. Alguns analistas citados no artigo haviam tentado associar o rótulo a crises econômicas anteriores, mas sem sucesso, o rótulo simplesmente não “pegou”.  Ora, dar nome a um evento pode tornar-se uma espécie de profecia autoconcretizante, diz Shiller, pois gera um surto de preocupações e incertezas, que faz com que a crise se prolongue no tempo. É possível evocar aqui a heurística de representatividade: ao adotar o termo “grande recessão”, a opinião pública passou a julgar os eventos que afetaram as bolsas de valores no final da década de 2000 com base em sua semelhança com memórias de eventos econômicos recorrentes.

Outra heurística que pode estar envolvida na reação da opinião pública às flutuações econômicas é a do afeto. Shiller descreve os resultados de um levantamento que vem fazendo juntamente com colegas, baseado em um questionário submetido a investidores institucionais e indivíduos de alta renda nos Estados Unidos. A pesquisa está em andamento desde 1989. Um resultado curioso é que os indivíduos da amostra atribuíram uma probabilidade significativamente mais alta para a ocorrência de uma crise no mercado de ações quando havia ocorrido um terremoto próximo a seu código de endereçamento postal nos últimos 30 dias!

Distinguir narrativas que são produzidas por eventos econômicos daquelas que têm impacto sobre eles não é nada fácil. Mais difícil ainda é dar-lhes um tratamento matemático formal, como pretende Shiller. Na verdade, sua mensagem presidencial deve ser considerada não como um produto final, mas como o estabelecimento de uma agenda de pesquisas, que, se bem sucedida, atrairá jovens pesquisadores. Uma vez que se valorize o poder das narrativas e sua intima conexão com o que de fato ocorre na economia, todo o problema passa a ser entender melhor a natureza dessa ligação para, quem sabe, refinar os instrumentos de previsão de crises.  Isso requer um trabalho alentado de investigação empírica, talvez na forma de grandes experimentos naturais, como menciona Shiller, mas também na forma de reconstituições históricas sobre as crises passadas e sua repercussão junto à opinião pública, como começou a fazer em seu artigo. Avançar nessa direção é um grande desafio para os economistas em geral, e para os economistas comportamentais em particular.  Otimista, Shiller (2017, 51) defende que esse desafio não é intransponível. Que assim seja.

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