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a caixa preta da governança

Lançado em maio passado, o livro “A Caixa Preta da Governança”, de Sandra Guerra, apresenta uma contribuição fundamental para a disseminação e aplicação dos conceitos e lições da ciência comportamental no meio empresarial brasileiro. O subtítulo – “para todos aqueles que precisam entender como o comportamento impacta as salas do Conselho” – resume perfeitamente o objetivo e ambição do livro: aplicar a ciência comportamental para analisar e atacar disfunções que impedem o bom funcionamento dos Conselhos de Administração, ou seja, a desvendar a “caixa preta” a que o título se refere.

Apesar de sua sólida formação, a autora não escreve a partir da perspectiva da academia, mas da própria sala do Conselho. Sandra Guerra é uma das precursoras do movimento pela melhoria da Governança Corporativa no Brasil, tendo sido nos anos 90 uma das fundadoras e, desde então, figura-chave do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), instituição responsável por formar centenas de conselheiros e liderar o debate e a disseminação de melhores práticas de governança no Brasil. Além disso, ela atua desde 2005 como Conselheira em diversas empresas e como consultora na área de governança corporativa.

A experiência da autora alimenta a originalidade da obra: ao estreitar o foco da sua análise para um domínio específico, os Conselhos de Administração (CAs), o livro torna tangíveis as potenciais aplicações da ciência comportamental para além dos experimentos onde muitas vezes as lições deste campo do conhecimento são aprendidas. Para que se avalie a importância desta contribuição, vale lembrar a constatação do vencedor do prêmio Nobel, Daniel Kahneman, na conclusão da sua obra-prima “Rápido e Devagar”, de que “organizações são fábricas de decisões”, mas que normalmente não planejam ou controlam a qualidade destes “produtos”.

Uma condição necessária para a realização da obra foi uma grande dose de coragem intelectual. Afinal, o livro, escrito por uma das maiores autoridades brasileiras em governança corporativa, tem como ponto de partida a constatação de que “os instrumentos de governança, apesar de continuamente em evolução, não têm sido capazes de impedir os piores fracassos empresariais, sempre com desastrosos impactos sociais diretos e indiretos” (pp 34-5), associada à premissa que a abordagem comportamental seria “o melhor bisturi para encontrar causas relevantes das limitações e males dos CAs, e também oportunidades para os transformar (…)” (p.26).

Além da vasta experiência empírica da autora, compartilhada em diversos pontos da obra em seus comentários sagazes, a obra usa como matéria-prima uma série de entrevistas em profundidade realizadas com executivos, conselheiros e especialistas em governança no Brasil e no Exterior, e uma pesquisa realizada com mais de uma centena de conselheiros no Brasil, mapeando os desafios e falhas de atuação percebidos por eles na atuação dos Conselhos de Administração.

O livro divide-se em 2 partes principais. Na primeira parte, a autora explica papéis, responsabilidades, e dinâmicas de funcionamento dos CAs, e problematiza as questões comportamentais que emergem do trabalho e interrelações entre conselheiros (independentes ou não), presidentes de conselho e CEOs. Os capítulos são ricamente ilustrados com depoimentos e casos reais. No início de cada um dos 5 capítulos, um dilema derivado de um caso real de decisão de Conselho é apresentado (p.ex. investir ou não em um projeto de infraestrutura, demitir ou não o CEO, etc.). Ao final de cada capítulo a solução adotada é apresentada, tenha sido ou não a mais efetiva. À parte a narrativa instigante, qualquer profissional que já esteve envolvido com processos de tomada de decisão corporativa e/ou com a ciência comportamental irá saborear as ilustrações e insights da autora sobre erros sistemáticos de planejamento, o falso senso de urgência muitas vezes imposto aos processos decisórios, a falácia da eficiência do executivo “multitarefa” (que se envolve em várias atividades ao mesmo tempo), o viés do ponto cego (“os outros são afetados por vieses, eu não”), entre vários outros fenômenos comportamentais trazidos à tona no livro.

A obra se beneficiaria de algumas discussões e reflexões em maior nível de profundidade, como por exemplo a discussão da validade e limitações da intuição no contexto das decisões empresariais (como no diálogo entre as obras de Daniel Kahneman e Gary Klein), o papel das emoções para o exercício da racionalidade, e os potenciais impactos do poder (percebido ou real) sobre a empatia e comportamento ético. Ainda assim, esses capítulos deveriam se tornar (e provavelmente se tornarão) leitura obrigatória para todos os interessados pela prática de governança corporativa e pela abordagem comportamental a problemas empresariais no Brasil.

A segunda parte do livro procura dissecar e propor soluções para os problemas apresentados na primeira parte sob o prisma da ciência comportamental. O primeiro capítulo desta parte, intitulado “o Mito da Racionalidade Corporativa”, apresenta, em pouco mais de 50 páginas, um bom resumo dos conceitos mais relevantes da ciência comportamental aplicada ao processo decisório: modelos de processamento dual (“Sistema 1 e Sistema 2”), heurísticas e vieses cognitivos, desvios decisórios em deliberações em grupos, etc.. Embora o capítulo não traga novidades para os já iniciados em ciência comportamental, a autora discute de forma organizada as aplicações e implicações destes conceitos no contexto das decisões corporativas, no qual, seria válido argumentar, o impacto da “racionalidade limitada” gera as maiores consequências econômicas e sociais.

O segundo e último capítulo da segunda parte, intitulado “A Bússola Comportamental”, busca propor soluções para superar os vieses e desvios decisórios. O tema não é trivial, e esta é uma área de debate intenso na literatura pela ausência de evidências contundentes sobre a eficácia de uma ou outra solução. Não é por coincidência que esta é a parte do livro com menor densidade de referências – a disponibilidade destas é relativamente reduzida. Mesmo levando essa nuance em consideração, nesta seção o livro perde, infelizmente, um pouco do brilho das outras partes.

Buscando endereçar todas as questões listadas no capítulo anterior, a autora lista mais de 70 ações individuais e/ou coletivas para melhoria do processo decisório em Conselhos de Administração. A mera quantidade de ações possíveis clama por uma taxonomia mais precisa para estas soluções, que não é fornecida. O conteúdo das propostas em si, embora essencialmente correto, é desigual: enquanto diversas iniciativas propostas estejam fundamentadas na teoria da ciência comportamental estejam citadas, como o pré-mortem proposto por Gary Klein, várias outras estão conceituadas genericamente, e dificultando sua tradução para ações concretas. Por exemplo: “O presidente do conselho deve propiciar a criação de uma cultura em que nenhum assunto seja considerado indiscutível” ou “a divergência deve ser encarada por todos os conselheiros de administração como uma obrigação, sempre de forma construtiva” (p.302).  Impossível discordar destas propostas, mas como implementá-las?

Uma crítica mais ampla, e mais importante, ao conjunto de propostas da autora é que elas se atêm quase que exclusivamente aos chamados “reparos cognitivos”. Assim, elas exigem que os agentes (conselheiros, presidentes, executivos) não apenas se conscientizem dos seus vieses e decidam corrigi-los, mas também tenham a disciplina e autocontrole para implementar e sustentar as mudanças. Ou seja, um cenário em que o “Sistema 2” mantém o “Sistema 1” sob controle, o que sabemos ser contraditório com as lições mais estabelecidas da ciência comportamental. Com isso, a autora deixa de explorar alternativas baseadas na constatação bem consolidada de que é mais fácil e viável mudar o contexto em que uma decisão é tomada, do que mudar o tomador de decisão. Essa premissa fundamenta a maior parte das recentes intervenções comportamentais bem-sucedidas, relatadas, por exemplo, nos livros “Nudge”, de Thaler e Sunstein ou “Inside the Nudge Unit”, de David Halpern.  Aplicada ao domínio de processos decisórios corporativos, ela abre caminhos que foram pouco ou nada explorados pela autora, como a arquitetura de decisões, ajustes ao contexto decisório (físico, temporal, social), redesenho de processos, entre várias outras possibilidades de intervenção para tornar os Conselhos de Administração mais efetivos.

Finalmente, um aspecto importante, que não é explicitamente abordado nesta última seção, e que seria relevante para os leitores interessados em efetivamente transformar a atuação de seus Conselhos, é a integração dos processos de diagnóstico, desenvolvimento de ações corretivas e avaliação de seus resultados. Justamente pelo fato de que Conselhos de Administração não são os ambientes mais intuitivos para a adoção da sistemática de “test, learn, adapt” praticada pelos líderes em implementações de intervenções comportamentais, seguir um processo claro minimizaria a dispersão de esforços e de foco na melhoria de seus processos decisórios

Entretanto, as eventuais limitações ou omissões de “A Caixa Preta da Governança” não podem, de forma alguma, diminuir a sua importância na literatura de negócios brasileira. Ao contrário, elas apresentam caminhos a serem explorados pelos acadêmicos e praticantes nas áreas de governança corporativa, ciências comportamentais e administração de empresas. A relevância e a urgência do tema só crescerão nos próximos anos, não apenas no que tange à atuação de Conselhos, mas todas as interações e decisões econômicas e empresariais deliberadas coletivamente. Como afirma o prefaciante Sérgio Rial, presidente do Banco Santander Brasil: “os limites da racionalidade e a complexidade emocional do ser humano não podem mais ser simplesmente ignoradas pelas práticas de administração e governança implementada nas organizações”.

Concluindo, a obra original e pioneira de Sandra Guerra é uma convocação para os especialistas em ciência comportamental para atravessar a ponte entre as fantásticas lições ensinadas pelas últimas décadas de pesquisas e os contextos reais em que decisões empresariais de alto impacto são tomadas. Que venham muitas mais em um futuro próximo.

 

Referências:

Guerra, Sandra. A Caixa Preta da Governança. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Best Business, 2017.

Thaler, Richard e Sunstein, Cass. Nudge: O Empurrão para a Escolha Certa. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008

Halpern, David. Inside the Nudge Unit. Reprint. Ebury Press: Londres, 2016.

Kahneman, Daniel. Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar. São Paulo: Objetiva, 2011.

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    Um Comentário

    1. Geraldo Leal de Moraes

      Contexto, circunstancias e pessoas criam sempre um equilíbrio dinâmico e sutil..A responsabilidade e papel de um Conselho de Administração para a sustentabilidade e perenidade de uma organização é vital Creio que apenas ter foco nos resultados financeiros dos acionistas ao representa–los, tira a função mais importante que é a estratégia da organização.Gostei do texto e comentários.

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