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Quando seu amigo compra determinado bem, o indivíduo sente vontade de fazer o mesmo, pois isso lhe transmite uma avaliação positiva do objeto de compra. Ao mesmo tempo, o indivíduo é motivado pelo desejo de estar “na moda”, emular seus pares, copiar seus padrões de conduta. Essas regularidades podem ser observadas na vida social em geral, mas aplicam-se também a escolhas que ocorrem no mercado financeiro, como é o caso dos investimentos. Entender os mecanismos causais que regem essas decisões é estratégico para prevê-las e orientá-las, principalmente em situações marcadas pelo risco de instabilidade financeira e comportamentos de manada.

Os mecanismos causais que regem comportamentos de imitação são objeto de estudo da sociologia desde seus primeiros tempos. Mais recentemente, economistas comportamentais passaram a realizar experimentos e outros tipos de pesquisa de campo para investigar a importância dos chamados “efeitos de pares” (peer effects) nas decisões humanas.

Estudo recente publicado na Econometrica, um dos mais prestigiados periódicos do mundo na área de economia, trata exatamente desse tema. O artigo, escrito por Leonardo Bursztyn, Florian Ederer, Bruno Fernam e Noam Yuchtman, baseia-se em experimento de campo realizado junto aos clientes de uma corretora brasileira, com o objetivo de conhecer os mecanismos que pautam decisões de investimento. Os autores estudaram redes integradas por pares (amigos e familiares) para distinguir, na prática, a influência relativa de efeitos associados a duas noções importantes da economia comportamental: utilidade social e aprendizado social.

A influência dos amigos nas decisões de investimento

Quando um agente econômico investe em determinado ativo financeiro, qual a probabilidade de ser imitado por seus pares, e por quais mecanismos? A partir dessa pergunta inicial, os autores levantaram a hipótese de que, ao considerar a possibilidade de adquirir um ativo financeiro, o investidor tende a imitar a escolha de seu amigo, por uma ou ambas de duas razões: a) porque a escolha do amigo lhe transmite uma avaliação positiva do bem em questão (aprendizado social); b) porque incorpora em sua própria função utilidade a utilidade que seu amigo extrai da posse desse bem, estando propenso a imitá-lo (utilidade social).

No experimento de Bursztyn os sujeitos foram agrupados em pares de indivíduos ligados por amizade ou parentesco. Em seguida os membros de cada par foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos, investidores 1 e investidores 2. Como resultado geral, os autores confirmaram que as pessoas tendem a reproduzir o comportamento de seus pares: ao receber informação sobre as escolhas destes, uma expressiva maioria dos investidores 2 mostrou-se disposta a adquirir o mesmo ativo.

Entretanto, os pesquisadores estavam também preocupados em diferenciar os efeitos de aprendizado social dos efeitos de utilidade social, tais como definidos acima, para medir seu impacto relativo. Assim, do total de investidores 1 que mostraram disposição de adquirir o ativo financeiro apresentado pelo corretor (ou seja, cuja preferência revelada era pela compra desse ativo), apenas 50% deles, escolhidos por sorteio, puderam efetivamente adquiri-lo. Quanto aos investidores 2, eles eram aleatoriamente distribuídos em três grupos diferentes:

a)    Grupo 1 (de controle) – investidores 2 não recebiam informação nenhuma sobre as escolhas do amigo.

b)    Grupo 2 – investidores 2 eram informados sobre a disposição do amigo de comprar o ativo financeiro, mas não ficavam sabendo se o amigo tinha sido sorteado para efetivar essa compra.

c)    Grupo 3 – investidores 2 recebiam os dois tipos de informação, sobre a preferência revelada do amigo e sobre se tinha sido sorteado para comprar o ativo, consumando sua compra.

Considerando-se os três grupos acima, observou-se que 42% dos investidores 2 do grupo de controle investiram no ativo financeiro escolhido por seu par, mesmo sem ter informação sobre a escolha deste; 71% compraram ao saber da escolha do amigo, e 93% compraram ao saber tanto da preferência do amigo quanto do fato de ter sido sorteado para adquirir o ativo. Segue-se que a tendência a comprar o ativo escolhido pelo amigo existe, que ela é sensível ao aprendizado social e, mais ainda, ao efeito conjunto de aprendizado social e utilidade social.

A influência do grau de sofisticação do investidor

Em etapa posterior da mesma pesquisa, Bursztyn e co-autores constataram que o grau de sofisticação do investidor interfere em sua disposição de investimento. Assim, o aprendizado social aumenta quando o investidor 1 é sofisticado (“é professor de finanças”, “é um economista de prestígio”), e diminui quando o investidor 1 é pouco sofisticado (“meu irmão”, “meu parceiro de tênis”). O grau de sofisticação do investidor 2 também pauta suas decisões de investimento, sendo seu aprendizado social maior quando não tem traquejo na área (“sou novato em investimentos”, “não tenho vivência do mercado”). Os autores acrescentam, porém, que investidores sofisticados também estão sujeitos à influência social, porque o agente extrai utilidade do fato de copiar as escolhas do amigo.

Efeitos de pares nas escolhas individuais

Este experimento de campo, concebido e executado de forma extremamente cuidadosa, indica que as decisões dos investidores são orientadas pela influência que recebem daqueles que enxergam como pares.

Mais especificamente, a frequência com que esse padrão de comportamento ocorre reforça a tese de que as escolhas individuais não têm o grau de independência presumido pela teoria econômica ortodoxa, cujo protagonista é o agente econômico livre de influências sociais. A pesquisa relatada tem implicações importantes no campo das finanças comportamentais, pois ajuda a decifrar os mecanismos que entram em ação na formação de “bolhas” no mercado. Estas podem ser causadas por fluxos de informação em cascata derivados de aprendizado social, ou decorrentes do comportamento de manada associado à propensão do agente a imitar seus pares.

Implicações práticas e novas perspectivas

Em sua conclusão, o artigo de Bursztyn e co-autores especula sobre a possibilidade de testar as mesmas hipóteses em outros domínios do comportamento humano. Adolescentes, por exemplo, seriam um bom material de análise, pois são sabidamente sensíveis à influência de seus pares, inclusive em termos de utilidade social. Outra implicação prática seria no entendimento de estratégias de marketing baseadasem efeitos de pares que são utilizadas em vários canais de comunicação, tais como aquelas presentes no facebook e outras redes sociais. Nesse sentido, estudos semelhantes poderiam testar a eficácia de diferentes estratégias de comunicação, veiculadas por diferentes canais. Experimentos parecidos também poderiam servir para medir os fatores que estimulam a difusão de tecnologias, como é o caso daquelas ligadas a serviços de saúde, como campanhas de vacinação e campanhas antidrogas.

Para terminar, acredito que os economistas do estudo publicado poderiam beneficiar-se de uma maior interação com psicólogos e sociólogos. Considero que o conceito de utilidade social adotado pelos autores tem uma dimensão difícil de se apreender, que é o componente de inveja, que caberia distinguir dos demais componentes do comportamento de imitação.

Referências

Leonardo Bursztyn, Florian Ederer, Bruno Fernam e Noam Yuchtman, Understanding mechanisms underlying peer effects: evidence from a field experiment on financial decisions. Econometrica vol. 82 n. 4, pp. 1273-1301,2014).

10 Comentários

  1. Luana Marques

    Olá Ana Maria,

    Por favor, consegue me informar onde encontro a teoria sobre “efeitos de pares”, pois estou escrevendo o TCC e fala sobre a influência dos comportamentos e escolhas. Obrigada.

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  2. Ana Maria Bianchi

    Luana, vc pode começar buscando as próprias referências bibliográficas do artigo do Leonardo Bursztyn e coautores, que está disponível na webpage do Leonardo. Além disso, busque no Google os outros autores, que já publicaram artigos sobre efeitos de pares.
    Boa sorte na pesquisa!

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  3. Maria Bernardete Guimaraes

    Legal. Este experimento comportamental reflete como a psicologia pode auxiliar nas pesquisas comportamentais em diversas áreas e contribuir para a solução de muitos problemas.Como trabalho na área ambiental a vários anos percebo a dificuldade das pessoas adotar hábitos mais saudáveis e mais sustentaveis no seu dia a dia. Percebo que só através de uma cobrança ou legislação não jogamos o lixo no chão. As pessoas não associam o lixo que geram aos sérios problemas ambientais e de saúde ou ao desperdício de materiais, degradação ambiental e perdas econômicas. Por exemplo recipientes maiores para embalagens contribuem para gastos maiores e maior quantidade de resíduos, poluindo mais….A economia comportamental auxiliaria a entender melhor este universo?Creio que sim, basta surgirem anjos que encarem este desafio.

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  4. Maria Bernardete Guimaraes

    Outra área é a do consumo consciente. A maioria das pessoas desperdiça alimentos, água e não tem consciência das perdas econômicas associadas. Um exemplo? Para cada litro de água tratada gasta-se X reais e este custo é cobrado na conta mensal, repassado ao consumidor. Mas quando estamos num racionamento, sem água, só a poupança conseguirá resolver o problema.Acho que associar um valor econômico ao bem mostra como ele é importante. Por exemplo quanto vale uma árvore? Ela dá sobra, minimiza o calor solar e melhora a temperatura local, ela serve de abrigo a várias espécies, ela serve como ninho, ela garante ar puro e qualidade de vida, recupera nascentes e rios, minimiza o assoreamento, algumas fornecem papel e borracha, outras móveis, e tudo é valor econômico. Mas nem todos associam uma árvore a todas estas funções.

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  5. Maria Bernardete Guimaraes

    Quanto mais reciclamos papel mais árvores poupamos, quanto mais coleta seletiva fazemos mais qualidade de vida teremos, menos doenças devido a contaminação e mais economia de recursos naturais. Assim teremos qualidade de vida pra futuras gerações. Preservação e conscientização andam juntas.
    Mas é preciso ensinar que nossa qualidade de vida depende de nossas ações e escolhas.

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  6. Maria Bernardete Guimaraes

    Quanto a água tratada o seu custo diminuiria muito se colocassem menos produtos químicos para trata-la. Mas só preservando e evitando que sejam os rios contaminados por esgoto e lixo. Este comportamento do consumidor de se livrar dos resíduos após o consumo só pode ser corrigido se for cobrado ao lançar resíduos sólidos em locais inapropriados. Assim com menos impurezas menos química é usada em seu tratamento e diminui seu custo. Uma reação dominó, ou efeito dominó. Todos ganham.

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  7. Ana Maria Bianchi

    Sem dúvida, Maria Bernardete, suas preocupações ambientais são muito válidas. A economia comportamental também tem se preocupado com essa questão de preservação do ambiente. Como o Estado e outras instituições, inclusive aquelas da sociedade civil, podem criar “nudges” que estimulem as pessoas a tomarem decisões que atendem seu interesse de longo prazo? É possível pensar o ambiente como produto de uma arquitetura de escolha em escala global, em cujo desenho entram muitos atores diferentes, de consumidores individuais a grandes companhias, ao mercado e aos governos.
    Um conceito interessante, nesse campo, é a chamada “tragédia dos comuns”. As escolhas individuais podem ser racionais do ponto de vista do interesse de curto prazo (ou mesmo de longo prazo) do indivíduo que as faz, mas podem trazer consequências danosas do ponto de vista coletivo. A poluição provocada pela emissão de gases poluentes para operar uma fábrica ou mesmo uma atividade pecuária é considerada um caso de externalidade negativa.
    Como resolver esse tipo de problema? Não é de solução fácil, mas é preciso conceber, em cada caso, um sistema de incentivos mais adequado, como já tem sido feito em muitos países. A arquitetura de escolha pode ser desenhada de forma a criar estímulos para que as pessoas, empresas etc. façam escolhas mais adequadas do ponto de vista do bem estar coletivo, e da sobrevivência do planeta.

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  8. Ibrahim Facuri

    Boa noite professora, tudo bem? Sou aluno do MBE de Economia Brasileira para Negócios pela USP. O professor Márcio Bobik me recomendou entrar em contato com você. Estou fazendo um trabalho de TCC.
    O tema provavelmente será “Diferença de percepção de risco em investimento anjo entre empreendedores e executivos”.
    Se puder me passar seu email, explico com mais detalhes. Só queria uma orientação inicial mesmo, de como fazer melhor e usar melhor os dados que tenho.
    Obrigado, abraço!

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