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Depois de uma noite ansiosa, acordando repetidamente para checar o horário e com medo de perder a chamada do despertador, ninguém gosta de encontrar uma manhã fria e chuvosa. Mas naquela sexta-feira havia um senso meio surreal no ar, como se eu ainda estivesse no transe de um sonho.  Estava indo ao aeroporto de Portland, OR (onde moro) encontrar o prêmio Nobel de Economia de 2012, Dr. Alvin Roth.  É estranho que uma atividade cotidiana e sem grandes efeitos, como buscar alguém no aeroporto, pode se transmutar em um evento marcante, digno de ser contado muitas vezes. Mas, como cientista comportamental esse tipo de “transmutação” não deveria surpreender. É a diferença entre topografia e função.

Como é, Carol?  Deixa eu esclarecer: em Análise do Comportamento, chamamos de topografia a descrição física de uma ação, por exemplo, quando uma pessoa pega um produto da prateleira do supermercado e põe no carrinho. Uma descrição “rasa” seria chamar isso de comportamento de comprar, mas na prática, o que observamos foi apenas o movimento de transferência do produto entre prateleira e carrinho. A partir dele somos tentados a tirar uma série de conclusões: que o produto será comprado, que o produto oferece utilidade ao consumidor etc. etc. Mas, a verdade é que se o único fato que temos em mãos é a observação desse movimento, não temos elementos suficientes para tirar grandes conclusões.  Precisamos ampliar a “figura” e acrescentar informações anteriores e posteriores a esse evento isolado para concluir que se trata de uma ocasião de consumo: o que ocorreu antes? Ex: o consumidor foi ao supermercado com fome e/ou viu uma propaganda sobre o produto. E o que aconteceu depois? Ex: levou o produto até o caixa, pagou por ele, consumiu-o imediatamente e se tornou propenso a compra-lo novamente no futuro… coisas assim.  Ao acrescentar essas informações transformamos a topografia em função e, somente a partir daí podemos tecer explicações e previsões comportamentais sobre esse evento.

No caso daquela sexta-feira, a topografia era eu estar saindo da cama mais cedo do que gostaria e enfrentando uma manhã fria e chuvosa. A função desse evento se revela nas informações de que meses antes havia se iniciado uma extensa comunicação entre eu, o prof. Alvin Roth e o departamento de Economia da Reed College, para viabilizar uma visita dele ao campus da universidade.  Esses eram os fatores antecedentes. As consequências ainda estavam por vir, mas minha história pessoal permitia antecipar que elas seriam prolongadas e benéficas em termos de novos conhecimentos gerados, alunos motivados, extensa rede de contatos e parcerias de pesquisas que poderiam se abrir.

Em suma, embora minha topografia daquela manhã sugerisse que eu estaria cansada e mal-humorada, a função era muito diferente e envolvia uma mistura de apreensão e motivação, uma urgência em garantir que os planos para o dia se cumprissem e a execução de uma rotina matutina eficiente e dinâmica que é totalmente anômala à minha rotina ao acordar.

Enquanto o motorista do Uber dirigia ao aeroporto, rabisquei o nome “Dr. Alvin Roth” em uma folha de papel, caso ele não se lembrasse de meu rosto ao sair da área de desembarque. Esse momento é mais um exemplo da diferença entre topografia e função: o ato singelo de escrever um nome no papel (topografia) e todas as implicações antecedentes e consequentes de ser esse um nome tão significante (função).

O papel, no final das contas, se provou inútil pois assim que ele despontou no portão de desembarque, houve um reconhecimento imediato de quem seria a pessoa que o aguardava.  Creio que o brilho no olhar de estar na presença de alguém cujo trabalho mudou sua vida é inconfundível.  Imagino que ele já tenha sido bastante exposto a esse tipo de admiração para reconhece-la imediatamente.

No trajeto para o hotel, conversamos sobre a relação entre Economia Comportamental e Experimental.  Roth é um dos pioneiros da Economia Experimental, coautor daquele que talvez seja uma das “bíblias” da área, o livro The Handbook of Behavioral Economics (1995) editado em coautoria com o economista John Kagel.  A boa notícia é que no ano passado foi lançado o Handbook of Experimental Economics Volume II. Imperdível!!!  A má notícia é que, segundo Roth, não haverá um volume III.  Veremos…

Perguntei se na visão dele, haveria uma separação entre Economia Experimental e Comportamental ou se as duas áreas se sobrepõem completamente. Comecei perguntando se ele se considera um experimental, comportamental ou ambos.  A resposta foi na linha de: não sei o que significa ser um economista não-comportamental.  Tudo em que um economista trabalha envolve comportamento e ignorar isso é pura cegueira. Acho que o termo “comportamental” é provocativo, por trazer esse tipo de cegueira histórica à tona.  Para mim, a única distinção com significado é entre ser experimental ou não.  Isso é uma escolha metodológica que qualquer economista deve fazer em algum momento da carreira”[1].

“Ironicamente” – ele continuou – “creio que os ditos “economistas comportamentais” correm o risco de se tornarem excessivamente teóricos e menos experimentais.” Nesse momento eu arregalei os olhos, perplexa, e ele explicou: “muitas vezes gasta-se muito tempo e energia discutido se os agentes econômicos são ou não racionais – e isso é um debate teórico e normativo. Para mim, esse debate interessa muito pouco.  Como experimentalista, estou mais interessado em estudar o que as pessoas de fato estão de fato fazendo do que me concentrar no que elas deveriam estar fazendo e tentar pensar em meios de corrigir as ditas anomalias”.  Uau, já amei a conversa!

Chegamos no campus da Reed College, universidade norte-americana onde leciono e conduzo experimentos, no laboratório do psicólogo experimental Dr. Timothy (Tim) Hackenberg. Fizemos um “tour” pelo laboratório e equipamentos, enquanto o Tim foi explicando pesquisas para o Alvin (estava me sentindo tão íntima desses “gigantes” a ponto de usar os nomes diretamente, rs). Tim conta sobre seu trabalho com as chamadas Economias de Tokens para estudar relações econômicas envolvendo dinheiro, mas usando principalmente sujeitos não-humanos (ratos ou pombos de laboratório).  À primeira vista, pode parecer estranho usar esses sujeitos, mas as vantagens se tornam óbvias rapidamente quando entendemos o que seja uma Economia de Token.  Diferente dos humanos, todo rato inicia esse tipo de experimento como um sujeito 100% ingênuo em relação ao que seja dinheiro.  Assim, temos a oportunidade de ensiná-lo sobre esse conceito da forma que quisermos.  Podemos manipular todas as vivências de renda do sujeito – torna-lo propositalmente rico ou pobre, criar “viradas de mesa” em que ele deixa de ser rico e passa a ser pobre etc. – conforme os objetivos específicos da pesquisa.

Os ratos, ingênuos, são treinados primeiramente a emitir alguma resposta (ex: apertar uma barra) para obter o chamado reforço primário: algo que ele precise para sobreviver, como água ou alimento.  Depois, ele aprende que para obter esse reforço primário, ele precisa agora trabalhar em troca de tokens (por exemplo, uma ficha de plástico). Somente após acumular um número mínimo de tokens é que ele poderá trocá-los pelo reforço primário. Em psicologia chamamos isso da cadeia comportamental: quando o sujeito precisa primeiro trabalhar para obter um meio de troca (como dinheiro/ salário), acumular uma quantidade desse meio de troca e, apenas após juntar um montante mínimo, ele poderá comprar um produto que ele precisa ou gosta.  Alguém reconhece essa situação no seu dia-a-dia de trabalhador?

Como pioneiro experimental que é, Alvin Roth já sabia o que era uma economia de tokens, mas ficou fascinado em conhecer os tipos de pesquisa econômica que estavam sendo feitos dentro de laboratórios de psicólogos.  Uma das pesquisas que ele mais se interessou investigava formas de se medir o valor subjetivo dos tokens, ou seja, o quão valiosos os tokens se tornavam para o sujeito experimental depois de um longo tempo?  Será que há diferença no valor subjetivo de um token se ele puder ser trocado apenas por um único bem ou se ele puder ser trocado por diversos bens? Usando termos mais técnicos, tokens que podem ser trocados por vários bens – assim como dinheiro – são chamados de estímulos generalizados.  A foto a seguir mostra o economista fotografando uma das caixas experimentais usadas para ensinar pombos o que são tokens/dinheiro e a gastá-los em um “mercado” simplificado. Nele, os animais aprendem a gastar seus “salários” para comprar água (a um preço) ou grãos (a outro preço).

Em seguida, Tim explicou a Alvin (rs), sobre outra linha de investigação no laboratório: como podemos quantificar o valor subjetivo do contato social?  Será que ratos aceitam “pagar” (em tokens ou esforço) para ter acesso a outros “amigos”?  Se sim, até quanto?  Para investigar isso, os ratos devem escolher entre “comprar” pelotinhas de açúcar (alternativa 1) ou um período de contato com um rato conhecido (alternativa 2). Caso escolha ter o contato social, uma portinha se abre na caixa experimental e ele pode entrar por algum tempo em uma sala onde esse rato está aguardando. Em outras situações ele também pode comprar um período de contato com um rato desconhecido. Para quantificar o quanto “vale” cada uma dessas alternativas, monta-se curvas de demanda, nas quais o preço de cada uma vai se tornando gradualmente mais caro. A foto abaixo mostra Alvin Roth e Tim Hackenberg discutindo as implicações econômicas desse tipo de investigação. Ao fundo aparece uma das caixas experimentais onde essas escolhas são feitas.

Ao final da visita, todos posamos para uma foto que registrasse o final dessa manhã tão rica no diálogo interdisciplinar.

O almoço consistiu em uma conversa com um pequeno grupo de 20 estudantes da Reed College, selecionados em função do interesse demonstrado pela Economia Comportamental. O grupo tinha igual número de estudantes de Economia, Psicologia e Neurociências.  Mais adiante no dia, o professor expandiu o mesmo assunto da conversa a um público de 200 pessoas no auditório da universidade. Em ambos os eventos, Alvin Roth expôs uma de suas principais linhas de pesquisa atual e os desafios enfrentados em seu desenvolvimento.

Um dos motivos da escolha de Alvin Roth para o prêmio Nobel deveu-se a seu trabalho na área de desenho de mercados. Nela, investiga-se quais são as contingências sociais que determinam como os mercados se organizam, quais preços se formam e como a oferta e demanda se equilibram. Uma vez identificados esses fatores, estuda-se como modifica-los, de forma a direcionar o comportamento dos agentes para realizarem transações econômicas com melhores resultados para todos. Essa é a essência do desenho de mercados (market design) e da arquitetura de escolhas.

Um mercado que Alvin Roth tem prestado especial atenção é o de transplantes de órgãos. Esse é um exemplo do chamado “mercado de encontro” (matchmaking market). A diferença entre esse e um mercado mais tradicional (commodity market) é que nesse último, o preço é o principal determinante para que as transações se concretizem. Por exemplo, se eu quiser comprar uma ação da AMBEV na Bovespa, tudo o que eu preciso fazer é disponibilizar o preço dessa ação a uma corretora de valores e a ação será minha. Não tenho nenhum interesse em saber quem me vendeu a ação, se esse antigo dono da ação “cuidou dela com carinho”, etc.  A ação é padronizada, é a mesma para todos os acionistas e se alguém se dispuser a pagar um preço e outra pessoa se dispuser a vender por esse preço, a transação será feita. Isso é um marcado padrão (commodity market).

Um mercado de encontro (matchmaking market) exige que cada uma das partes da transação especificamente escolha a sua contraparte.  Um exemplo são casamentos. Um candidato a marido não se oferece no mercado como se fosse um leilão, até que uma candidata a esposa aceite pagar seu “preço”.  Cada uma das partes de um casamento precisa especificamente escolher “aquele” cônjuge e ninguém mais (espero!).

Aos interessados, sugere-se a leitura de um dos best-sellers desse autor: “Who Gets What and Why” (Quem recebe o que e por quê?). Não sei se ele já foi traduzido para o português, mas quem tiver acesso ao livro, é imperdível!

O mercado de transplantes de órgãos é do tipo de mercado de encontro.  Um transplante (“transação”) só ocorrerá se 1) o doador aceitar doar; 2) o receptor da doação for biologicamente compatível. Cada “transação” nesse mercado é um caso único, específico.  Alvin Roth tem se dedicado nos últimos anos a redesenhar um sistema para doação de rins pelo mundo.  Transplante de rins tem uma característica importante no fato de que é possível doações in vivo, ou seja, um doador pode doar um de seus dois rins e ter uma longa vida saudável com o rim remanescente.

Apesar dessa vantagem, atualmente há mais de 100.000 pacientes norte-americanos na lista de espera por um rim e cerca de apenas 17.000 transplantes ocorrem anualmente nos Estados Unidos. Tradicionalmente e em diversos países, só é permitida a doação viva de rins se o doador for parente imediato do recipiente.  Logicamente, também é fundamental que o doador seja biologicamente compatível. Ambas restrições – de legislação (parentesco obrigatório) e biológica (compatibilidade) são graves limites à expansão desse sistema.

Alvin Roth desenvolveu um algoritmo que expande grandemente o número possível de transplantes de rins nos Estados Unidos.  A ideia é simples: imagine que há dois pares de paciente-receptor.  Um par é composto por um paciente renal e seu irmão que se dispôs a doar seu rim para salvar a vida dele, mas eles são incompatíveis entre si.  O segundo par é uma paciente renal e sua filha, ambas biologicamente compatíveis. Na verdade, a filha é do tipo sanguíneo “O”, que a torna facilmente pareável a vários receptores. Nos moldes tradicionais, essa situação resultaria em apenas um transplante: da filha para a mãe e o paciente do primeiro par estaria condenado a uma vida de diálise, ou pior!

Mas, sugere Roth, e se a filha doar para o paciente do Par 1 e o irmão (Doador 1) doar para a mãe (Receptor 2)? Nesse caso, seriam feitos dois transplantes em vez de apenas um.  Roth não parou por aí. Ele continua: e se usarmos um rim de um doador falecido ou altruísta e o colocarmos na mãe (Receptor 2)?  Nesse caso, a filha (Doador 2) ainda pode doar para o Receptor 1 e o rim do irmão (Doador 1) ainda pode ser transplantado em um terceiro receptor?  Assim, forma-se uma cadeia de doadores e receptores “do bem” pelo mundo.  Para dar uma ideia do que isso significa, em 2008 esse tipo de algoritmo permitiu transformar um único doador falecido em uma cadeia de 6 elos, ou seja, com três receptores e três doadores.

Mas não para por aí! Em 2011 formou-se uma cadeia com SESSENTA elos, com trinta transplantados e trinta doadores. Essa foi a matéria publicada na época no jornal The New York Times:

https://www.nytimes.com/2012/02/19/health/lives-forever-linked-through-kidney-transplant-chain-124.html

Na palestra, Alvin Roth explorou esses avanços e os múltiplos desafios à sua execução e expansão dessa lógica no futuro. Um dos maiores desafios nesse mercado é como garantir que os doadores e recipientes tenham recursos financeiros suficientes para pagar pelos cuidados de saúde subsequentes?  Se uma pessoa ou entidade privada ou governamental se dispuser a pagar por esses gastos, essa prática é muitas vezes acusada como inaugurando um mercado de venda de órgãos, gerando reações imediatas de repugnância.  Roth tem desenvolvido uma literatura interessantíssima sobre como esse tipo de repugnância se torna uma restrição feroz ao crescimento de um mercado que pode salvar milhares de vidas.  Aos interessados:

Roth, Alvin E. “Repugnance as a Constraint on Markets“, Journal of Economic Perspectives, 21:3, Summer, 2007, pp. 37-58

Acho que nem precisa ser uma “nerd” como eu para se fascinar por esse tipo de interação: Alvin Roth usou suas descobertas experimentais e seu conhecimento matemático sobre algoritmos e Teoria dos Jogos para superar uma barreira biológica até então instransponível e salvar milhares de vidas!

Segue uma recordação desse evento:

Esse dia surreal terminou com um grande jantar no departamento de economia da Reed College, onde os alunos puderam interagir ainda mais com esse incrível pesquisador, pegar autógrafos e matar curiosidades do tipo: “Depois de receber o prêmio Nobel, você ainda dá aulas ou faz pesquisas no dia-a-dia?”. A resposta foi “Sim, claro! Nada me impediria de pedalar todos os dias até meu laboratório e continuar a fazer experimentos que me ajudem a entender e melhorar o mundo em que vivo!”

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[1] Cabe clarificar que apesar do texto estar entre aspas, essas falas são minhas memórias sobre o que ele disse e não uma citação direta. A conversa, infelizmente, não foi gravada.

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